Curiosidades
1. Reverberações da crônica “Companheiras” de Eneida
1.1 Verbal: Na crônica, a narradora pergunta logo no 3° parágrafo "Quem já se esqueceu o sombrio fascismo do Estado Novo...", depois (na segunda página), ela diz "Um dia – jamais esquecerei esse dia", no parágrafo seguinte, "Nunca esquecerei o vestido sujo", e, na última página, "Nunca a esquecerei" e "Jamais esquecerei também as vinte e cinco mulheres...". Em Mulheres da Sala 4, Regina diz "jamais esquecerei a generosidade" na cena 2 e Clara diz "jamais em minha vida vi um grupo de pessoas sendo tão gentis com uma desconhecida" na cena 4.
1.2 Temática:
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Grande parte da cena 2 de Mulheres da Sala 4 desenvolve a ideia de saudades da vida no mundo exterior apresentada nos primeiros parágrafos da crônica “Companheiras”.
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A partir do 13º parágrafo da crônica “Companheiras”, Elise Saborowski Berger, a Sabo, é levada à Sala 4 após meses sendo torturada em outros cárceres. Inicialmente, ela está muito assustada e se mantêm em silêncio e distante das outras encarceradas, mas ao se ver acolhida e cuidada, este sentimento dá lugar ao senso de sororidade e o desejo de saber quem são elas. Embora incomparavelmente menos sofrida, a entrada em cena de Clara na cena 4, reverbera esta chegada.

2. Reverberações de “Memórias do Cárcere” de Graciliano Ramos
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A rotina contada pelas refeições, hora do banho e do lazer espelham os relatos do livro
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Na cena 5, a descrição um tanto desejosa que Elza faz de Valentina, assim como a menção aos olhos verdes e à voz potente da Eneida, são adaptações das descrições que Graciliano faz delas em seu livro.
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A existência da Rádio Libertadora e a curiosidade de Graciliano em entender o que estava acontecendo é espelhada pela personagem Clara.
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O buraco na parede entre as celas por meio do qual Clara e Eduardo conversam é uma referência ao buraco descrito por Graciliano por meio do qual Valentina conversava com seu marido Adolfo.
3. Rádio Libertadora
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Todas as notícias que o prisioneiro lê na cena 6 são manchetes que retiramos de jornais publicados no Rio de Janeiro entre os dias 28 de maio e 04 de junho de 1937.
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Na cena 6, o personagem Eduardo canta o trecho inicial de “Carinhoso”. Além de que queríamos uma canção romântica para apresentar o personagem e sua relação com Clara, a escolha desta canção se deve a que 1937 foi o ano de lançamento da versão cantada na voz de Orlando Silva para a música de Pixinguinha (a versão instrumental já existia desde 1916). Outro motivo foi que se trata de uma canção muito conhecida e cuja primeira estrofe não exige muita habilidade vocal do intérprete.
5. Quantas mulheres estiveram presas na sala 4 do Pavilhão dos Primários?
Esta é uma excelente pergunta para a qual não temos resposta. Ocorre que os ex-prisioneiros que deixaram relatos memoriais escritos não entram em acordo neste aspecto: Eneida fala em 25 mulheres na crônica "Companheiras", já Graciliano Ramos menciona 12 nomes em "Memórias do Cárcere" enquanto Maria Werneck de Castro afirma que eram 16 em seu livro Sala 4: Primeira Prisão Política Feminina. Cruzando dados destes três informantes e de nossa pesquisa documental, conseguimos identificar 20 nomes, o que não significam que todas essas mulheres tenham estado lá ao mesmo tempo nem que todas as que estiveram por lá foram documentadas visto a irregularidade com que muitas prisões foram efetuadas no período. Além da rotatividade de prisioneiros, há que considerar que todos os três relatos foram escritos anos após os acontecimentos e que a memória é uma matéria volátil. De todo modo, foi a incerteza deste dado que nos permitiu inserir personagens fictícias na sala 4.
6. Nomes das personagens
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Vera (latim): verdadeira. Este nome foi escolhido porque ela a história que ela conta nasce de sua pesquisa histórica.
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Regina (latim): rainha
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Clara (latim): luminosa e uma referência ao livro "A Casa dos Espíritos" de Isabel Allende, romance que também aborda as instabilidades políticas da América Latina do século XX
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Elza: homenagem à cantora Elza Soares
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Das Dores: referência a um dos atributos de Nossa Senhora (Maria das Dores)
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Arlete (germânico): comandante do exército
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Betânia: um dos significados deste nome é "casa da aflição"
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Hélio (grego): o deus Sol (enquanto carcereiro, ele regula a rotina diária dessas mulheres)
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Eduardo (saxão): o protetor ou guardião das riquezas
7. Trecho de “O Mágico de Oz”
Ao final da cena 5, uma personagem lê para Betânia o parágrafo de abertura do livro "O mágico de Oz". A escolha deste livro foi por 2 motivos:
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Dorothy (a protagonista do livro), passa a maior parte do livro procurando uma forma de voltar para o Kansas e repetindo que "não há lugar melhor do que o nosso lar", e voltar pra casa é também o que as prisioneiras da sala 4 mais desejam.
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Quando foi montada a experimentação "Companheiras", um dos pontos de partida para a escrita da dramaturgia, Claudia foi a atriz que interpretou a personagem Valentina. Em uma determinada cena, ela contava um trecho dessa história para ninar suas colegas de cela. Ocorre que o diretor a orientou a recorrer a algumas memórias pessoais na construção da cena, assim, a escolha foi por ter lido o livro e por ter interpretado o Homem-de-lata em uma apresentação de teatro e dança quando tinha 13 anos.
8. Elenco
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A atriz Eliane Gomes é a única pessoa em cena que também participou da experimentação cênica "Companheiras" (ver Concepção e Pesquisa), mas interpretando uma personagem totalmente diferente.
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Os atores Evs Cris e Everton Pereira que interpretam o casal Clara e Eduardo são irmãos na vida real.
9. Figurino
Parte do figurino utilizado foi tomado de empréstimo de outro espetáculo da Cia Paraense de Potoqueiros, o Eternamente Rainhas.
10. Tortura
Para a dramaturga, a cena mais difícil de escrever e a única que foi reescrita pelo menos 4 vezes (e chorando em cada uma das vezes) foi a cena 6.
Não havia como escrever sobre mulheres presas políticas de uma ditadura militar, sem escrever uma cena que abordasse diretamente as várias formas de violência a que elas foram (são) vítimas sob estas circunstâncias: tudo o que ocorre e/ou é mencionado em cena foi tirado de depoimentos de sobreviventes do período.
Dentre nossas preocupações com esta cena estavam:
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Buscar uma forma de honrar as memórias dessas sobreviventes cedendo o espaço de escuta ao que lhes ocorreu, mas, ao mesmo tempo, sem fetichizar o sofrimento. Essa foi a principal motivação para não mostrarmos além do necessário.
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Evitar jogar uma cena de violência e não lidar com isso em seguida, mostrando a personagem já levando sua rotina normal como se nada tivesse acontecido visto. Na vida real, esse tipo de experiência costuma causar traumas psicológicos profundos, daí, nossa escolha por mostrar os desdobramentos do fato para as personagens.
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Evitar o uso da violência física, sobretudo a sexual, contra uma personagem feminina como recurso narrativo para fazer evoluir uma personagem masculina. Por isso, optamos por abordar a maneira como a violência contra uma mulher afetaria as demais que convivem com ela.

